sábado, 24 de março de 2012

Sinos soando ao longe

Imaginemos por um momento que o inferno é um mundo próprio, que cada um cria para si mesmo, que nem naquele filme com o Robin Willians (só que lá é o céu). No céu, você tem o que quiser, o que gostar, então o inferno deve ser o contrário, tendo tudo que você odeia, e que não tem controle nenhum sobre isso. O meu decididamente seria uma metróple.

Talvez São Paulo, com um pouco de Nova Iorque e Tóquio. Luzes, cartazes, barulho e gente. Muita gente mesmo. Creio que não haveria árvore nenhuma, nem mato ou qualquer coisa viva além de pessoas... talvez ainda houvesse os troncos cortados das árvores nas calçadas. Semáforos, bueiros, lixos... talvez parecesse um pouco com Gotham City, antes do Batman. Seria uma daquelas cidades em que não se vê o céu, apenas uma camada cinza: cinza escuro à noite, cinza claro de dia e nada de chuva. Poças, áreas alagadas e bueiros entupidos sim, mas chuva propriamente dita não.

É claro que o trânsito seria infernal. Filas para absolutamente tudo, menos para os banheiros, estes não existiriam. Não sei decidir se não faltaria energia nunca, ou se blackouts seriam constantes, não que energia real fosse necessária. As pessoas, é claro, não seriam todas iguais, mas seriam divididas em estereótipos, e tal como os banheiros, não-estereótipos não existiriam. Decididamente um deles seriam os que andam com celular sem fone no ônibus, e os limpadores de para brisa... Aliás, não que tudo fosse caro, mas dinheiro seria algo constante.

Eu com certeza não teria carro nem nada do tipo: à pé e de pé, sempre. Creio que seria como uma grande vitrine interativa: você não pode, por exemplo, usar um computador ou interagir com as pessoas, mas pode ser jogado de um prédio e "ser interagido" por pessoas. Aliás, "grande" é algo importante: muito, mas muito grande, e muito alta... pelo menos tempo não é um problema, mesmo que eu estivesse constantemente atrasado, ainda teria todo o tempo do mundo para me atrasar.

Também não sei decidir se o mundo todo seria apenas a cidade ou se haveriam outros "lugares", tal como desertos, calabouços, vulcões, catacumbas e coisas assim: por um lado, essas coisas seriam bem legais, e mudariam a "rotina", o que seria bom para mim, logo, é inaceitável no inferno, mas por outro lado, são ótimos lugares para fazer você sofrer... Creio que muitas coisas, caso parasse para pensar, entrariam nessa dúvida também. De qualquer forma, florestas, lagos, montanhas e todo o resto "do campo", com certeza não existiriam, ou (de novo), estariam destruídos... talvez para fazer lenha, depósito de lixo e mineiração.

Algo interessante de se notar é que você não morreria. Sim, eu sei que é óbvio, mas dentre as muitas formas de sofrimento, devemos adimitir que o sofrimento físico tem um lugar de destaque, portanto "acidentes" seriam realmente comuns. Ok, você pode reduzir uma pessoa à uma pasta de carne e sangue, mas depois tem que "remontá-la", para que a brincadeira possa continuar: é quase como ser imortal. Pensando em forma, creio que eu ainda seria eu... me odeio o suficiente para permanecer igual no inferno.

Voltando ao assunto "pessoas", não só de modelos randômicos se faz o inferno. Claro, aquela mistura de funkeiros, gangues, gente de abadá, tios do pavê, executivos apressados, maconheiros, manos, playboys, cariocas e posers continuaria, mas há alguns "cargos" de destaque: os demônios e as pessoas que você odeia especialmente. Não sei se vocês sabem, mas há toda uma hierarquia, tanto no céu quanto no inferno, e tal como anjos da guarda, devem haver demônios com função semelhante. Não que um dos grandes, como Baphomet ou Amon, fosse se dar ao trabalho de cuidar de almas sem importância, mas ordens (bem) menores teriam esse trabalho, e porra, quando se pode ser o que quiser, você não vai ter a forma de uma pessoa qualquer.

Pessoas são muito boas em produzir coisas, mas claro que papel alumínio e telefones não seriam produzidos no inferno. Não, me refiro à lixo, excrementos, sujeira, poluição e coisas do tipo. As calçadas seriam como corredores, uma faixa livre, com duas montanhas de lixo, uma de cada lado, além do cheiro e da constante sensação de pisar em cocô (o que de fato estaria acontecendo), ainda adiciono o constante barulho de buzinas e obras, além de fumaça. E, claro, todos fumariam. Muito e o tempo todo... além da bebida, um verdadeiro duelo entre a nicotina e o álcool.

Como já deve ter ficado claro, eu sou completamente anormal e filho da puta, logo, apesar do trânsito, da sujeira e das torturas, o inferno seria impressionantemente calmo. Não sei se "calmo" é a melhor palavra, mas seria bem "certinho", sem acidentes (de todos os tipos), brigas e tudo mais. Claro, se estes fossem um meio de me torturar ok (ao menos no seu inferno você pode ser egocêntrico sem culpa), mas de resto, seria realmente... pacato, chato. Barulhento sim, mas organizado, e, um tanto quanto simplório.

Indo, porém, para o imaginário clássico do inferno, com chamas, lava, gritos e afins, acho que essa é a "fórmula base", ou seja, o padrão seja esse, mas o inferno se molda para cada um, não para ficar mais complicado ou menos pior, mas justamente para intensificar o pesar de cada um. Talvez, na forma padrão, todo o sofrimento, a tortura e o caos fique mais na cara, com almas queimando pela eternidade e os gritos de terror ecoando, mas porra, tem gente que gosta disso... e isso é inaceitável. O ponto de ter um inferno só seu não é dar mais trabalho para o capeta, mas justamente te foder melhor... um filme pornô, onde o gozo é ácido... e acabo de pensar no acasalamento dos Aliens... mas enfim.

A questão é essa: você faz seu inferno. E não, não estou usando como uma metáfora para os problemas da vida. Imagine absolutamente tudo e todos que você odeia, num único local, com a única função de te tornar o mais miserável possível, pelo resto da eternidade. São desde as coisas mais simples, como cair pasta de dente na sua roupa, até males literalmente inimagináveis, que fazem, sei lá, genocídios parecerem fichinhas. O meu tem gente fumando dentro de bares de quinta, o de vocês pode ser um mundo cheio de árvores e animais (nesse caso, feche este blog imediatamente), mas independentemente de como seja, sempre haverá mais coisas para adicionar... assim como neste post.

Uma grande cidade, cheia de gente, sem nada para amenizar a opressão urbana. Sim, clichê, falando desse jeito, mas não deixa de ser verdade por isso. É, ao menos para mim, interessante esse... "exercício". Pesando agora, pareceria um tanto quanto o cenário de Constantine (o filme que todos os que leem a HQ reclamam), só que pior... e se já é pior agora, quando for para valer, vai ser realmente (com trocadilho infame) um inferno. E este seria apenas um, o meu, dentre bilhões e bilhões de outros infernos, um pior que o outro, dependendo apenas do ponto de vista... e de quanto atenção você chamou (se é que entendem).

Tem pessoas que dizem que o inferno é quente, tem as que dizem que o inferno não existe e tem as que dizem que estamos todos no inferno, só não sabemos ainda. Seja como for, ele depende de você... tal como o mundo dos sonhos, o céu ou sua própria mente. Se você nunca ganhou nada na vida, parabéns, pelo menos depois de morto você mudou isso, e milhões de coisas estão reservadas só para você, então não seja humilde, você provavelmente merece todas elas... mas vai que você vai para o céu?
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