sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Como ser um ditador (ou um assassino)

Arranje mentes fracas para você. Garanta que assim o são, porque vai ser importante mais para frente.

A chave para o sucesso é saber identificar, saber escolher as pessoas certas, o que significa que é preciso saber identificar aquelas que estão numa situação deplorável, independente de quão boa seja a vida que estas pessoas levam: quanto melhor a vida de alguém, se esta for comiserável, maior será o sacrifício que esta pessoa pratica dia após dia.

Pessoas não fazem o que não querem fazer, o que, genuinamente, não tem coragem (ou força, ou sangue frio - chame como quiser) de fazer, e é por isso que é importante que tenham mentes fracas: para que você as convença de que elas realmente querem e podem fazer o que você quer que elas façam, queiram ou possam elas ou não.

Discurso é imporante: paz, liberdade e igualdade, são os objetivos, mesmo que haja guerra pela paz ou paz para preparar a guerra. Deve-se buscar um equilíbrio entre o que você quer (e/ou precisa) fazer e o que as pessoas querem ouvir, o que equivale dizer que simplesmente ordenar um massacre é muito menos efeitvo do que ordenar um massacre para preservar os direitos, os ideiais e os valores da sociedade criada.

Sim, "sociedade", pois não se planta uma roseira no deserto e nem um cacto num vaso de centro de mesa. Para usar mais uma metáfora, é preciso ter uma boa fundação para que o prédio não caia, então deve-se também (e com prioridade máxima) substituir a cultura, os valores, a moral e os costumes anteriores aos seus, permitindo assim que não haja nem objeção às suas ideias e nem, distorções, dúvidas e (principalmente) o sentimento de "estávamos melhor antes": Imagem.

Não importa a situação, por pior que se esteja, deve-se passar a imagem de mais perfeita ordem, poder, segurança e indestrutibilidade: fortalecendo sua base, esta lhe fortalece, e um ciclo vicioso é o seu sistema perfeito de manutenção do status quo. Diga-se de passagem, vencer (lê-se "exterminar") uma revolução e/ou revolda de vez em quando pega muito bem, além de não deixar seu séquito preguiçoso e acomodado.

Garantindo sua base, sua imagem e seu discurso você cria seu "estado" (não confundir com "Estado", que é, muitas vezes, o objetivo da coisa toda), o que lhe dá e mantém seu poder, e é aqui que entra a importância das já mencionadas mentes fracas. Poupar trabalho, no início, é quase certeza de fracasso, mas depois de já estabelecido deve-se fazer mais com menos: a manutenção é de alta prioridade, mas ao estabelecer uma nova identidade (de cultura, costumes, ideais e de valores), inclui-se aí a "auto preservação", estabelecendo assim que a própria sociedade se mantém, deixando-o livre para cuidar de assuntos urgentes (estes devem ser minimizados e, finalmente, erradicados através do tempo) ou de maior interesse, a se exemplificar com a expansão do Estado.

Já tendo tratado da manutenção, passa-se à expansão, que pode-se realizar através de vários modos, cada um com seus prós e contras: forçosamente, podendo variar entre a pressão por parte dos iguais ou através da aplicação direta pela força; através da propaganda, fortalecendo assim discurso e imagem, variando entre a benevolência e a onipotência; "manipulando a situação", apresentando-se assim como uma "salvação para as pessoas (independendo do que se salva), oferecendo assim uma "escolha";

É importante se lembrar de que mesmo que você falhe agora, sempre haverá, no futuro (seja este daqui meses ou décadas), gente disposta a apoiá-lo, independente de quão surreais suas ideias possam parecer. A grande questão é contar com os extremistas, mas não apoiar-se neles, afinal, serão os únicos a lhe defenderem após serem pegos, o que significa dizer que serão os primeiros a mencionar seu nome, mesmo que seja para louvar-lhe.

Tendo criado sua base, sua imagem, preservado sua posição e expandindo seus interesses (uma vez que "estabilidade" não deve significar "estagnação", mas sim crescimento e fortalacimento constante, variando de intensidade de acordo com o contexto aplicado), torna-se desnecessário sua participação no governo comum, ou seja, você não precisa mais se preocupar com tudo e pode ordenar a outros que façam o que seria seu serviço. Ao mesmo tempo que esta manobra facilita sua vida e lhe dá tempo para executar outras medidas, ela pode lhe trazer problemas, que acabam por se resumir em uma palavra: insubordinação.

Manter um certo afastamento do governo diário não significa que você pode relaxar e descuidar de tudo que criou: liberdade demais abre espaço para manobras, e isso é justamente o que você não quer. Deve-se portanto manter rédea curta, tanto com seus "ministros" quanto com a população e os demais cargos governamentais. Um dos maiores erros que se pode cometer é deixar que outras pessoas façam seu trabalho, mas de um jeito diferente do que você faria. Em suma, você diz o que cada um deve fazer, como deve fazer e após a tarefa ser concluída deve fiscalizá-la (bem como os resultados que ela traz) pessoalmente.

Ainda que seu governo esteja forte, sua imagem intacta e seu poder permaneça inquestionável, é indispensável a manutenção de suas forças armadas. Mesmo que você não precise utilizá-las na manutenção do Estado, esta deve estar sempre preparada, uma vez que por mais poderesoso que um líder, seu governo e/ou seu Estado seja, ele não está imune à ataques, sejam estes vindos de rebeldes internos (que como já foi dito, devem ser erradicados) seja de fontes externas. Não apenas defender seu poder, suas forças armadas devem defender a população e, ao mesmo tempo, ter equipamento, tropas, disciplina e treinamento necessários para revidar o ataque, o mais rápido possível, e de preferência de modo que um segundo ataque não seja necessário à você e nem possível ao inimigo.

Uma vez tratado da aquisição e da manutenção, chega-se à uma parte crítica: a transferência de poder para o próximo no comando. Feliz ou infelizmente, este é um momento que deve ser seriamente levando em conta, afinal, por mais que algo dure, nada é eterno, e isso se aplica à humanidade. Deve-se, portanto, desde cedo, preparar seu sucessor, ensinando-o, guiando-o e direcionando-o, garantindo assim que a hegemonia continue: trata-se de preparar seu legado, mas de nada adianta ter tudo e dar tudo nas mãos de alguém que não tem capacidade e habilidade para lidar com isso. O que nos leva à questão inicial: é preciso saber escolher. Seu sucessor, acima de tudo, deve fazer parte de seu séquito, ser leal à você, mas ao mesmo tempo ter as características que definem um líder.

É imensamente indesejável que a pessoa a governar depois de você não seja preparada para tal tarefa, o que significa dizer que este deve ser igual ou até mesmo melhor que você. Além de ser condicionado a pensar e agir de forma determinada, executando as funções que você lhe encarrega, este deve ter um preparo diferenciado: deve entender de política, de guerra, de paz, ou seja, tudo que a população já sabe, mas com a diferença que ele mandará e não obedecerá. De forma simples, você, pessoalmente, deve prepará-lo para ocupar tal posição, ensinando-o tudo que sabe e garantindo que ele tenha capacidade para realizar atos (independentes dos objetivos) por conta própria. Entretanto, como já foi dito, não pode haver espaço para a moleza: seu sucessor estará no comando apenas quando você disser que ele está no comando, e a melhor forma de fazer isso é garantir que ele assuma apenas após sua morte, e que a população tenha a subservência à ele que tem à você.

Tendo esclarecido os passos gerais, cabe afirmar o óbvio: cada situação é uma situação, o que quer dizer que as ações específicas a serem tomadas dependem quase que inteiramente do contexto, dos envolvidos, das causas e das consequências a serem obtidas. Uma verdade, que pode ser moldada, mas que de início deve-se prestar atenção é o governante depende do povo, ou seja, de nada adianta usar um molde que não se adequa à situação vivida, a não ser que já haja um trabalho de preparação da população. A ordem geral é de que tudo pode ser alterado, mas toda e qualquer mudança (antes do governo efetivo) leva tempo, e tanto a alteração almejada quando o tempo necessário devem ser levados em conta.

Finalmente, nesta parte final, há a obrigação de afirmar que os resultados, todos eles, dependem de três fatores-base: a já mencionada população, você, é claro, e, o que lhe é permitido. Em outras palavras, sua vontade pode ser exercida em qualquer lugar, a qualquer momento, mas fatores como o local, recursos, o clima, a economia, o ideário já presentente na população e a quantidade de chances que você terás. E obviamente que se você desperdiçar chances demais, antes ou depois de estar no poder, a possibilidade de você perder são altas.

Arraje mentes fracas para você: caso você erre, elas não serão perigo algum.
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