segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Era de Aquário

Ao passo que escrevo estas palavras estou deixando de fazer algo que tenho feito nos dois últimos dias: fazer uma limpeza no meu computador (e talvez, apenas talvez, eu devesse fazer uma limpeza aqui também).

O computador que tive por mais tempo, um Itautec branco, do tipo que uma criança hoje não reconheceria como um computador, durou sete anos, e este notebook HP aqui está caminhando para isso. É bem verdade que este está em muito melhor estado do que aquele estava quando enfim foi trocado: mérito da evolução da tecnologia, mas também do fato de que os dez anos entre eles (com um período negro com um Positivo) me viram melhorar muito no trato com as máquinas. Naquele Itautec aprendi o que era a internet, os jogos de computador, a conexão discada. Com o Positivo aprendi que tem coisa que só se salva com reza braba. E com este aqui vi o mundo mudar, a tecnologia mudar, a internet mudar. 2007 é um ano extremamente diferente de 2016.

Mas bem, passei os dois últimos dias limpando meu atual computador. Nesses seis anos só precisei formatá-lo uma única vez, sendo que a segunda foi ontem. O que começou com uma limpeza de rotina nos tantos e tantos arquivos nele passou para uma formatação completa, e a limpeza de rotina virou uma limpeza completa também.

Tirei absolutamente todos os arquivos que tinha no computador. Reinstalei apenas os programas absolutamente básicos para meu uso, sendo que dei uma variada nestes também: Nada de Adobe Reader ou Foxit, mas Sumatra. Pela primeira vez na vida, nada de WinRAR, mas 7-Zip (pequena atualização: foda-se o 7-zip IZArc é o que é). Os drivers também estão reduzidos ao máximo, sendo a grande maioria drivers genéricos que o Windows conseguiu achar. Sim, o Windows continua, o 7, não o 10, mas só não instalei o Ubuntu porque não tinha nenhum instalador por aqui.

(Mais uma pequena atualização: foda-se a porra do OpenOffice.)
(Foda-se o Libre Office também. A porra da Microsoft ganha não é à toa.)

A limpeza completa então consistiu em tirar tudo que eu podia e colocar de volta o mínimo que eu podia.

Tenho coisas - músicas, fotos, textos, vídeos, imagens, desenhos, gifs - de desde que eu comecei a salvar coisas da internet. Eu tinha uns 10 anos. Isso dá mais de uma década de arquivos salvos. Claro, entre os três computadores que tive desde então perdi muita coisa entre as trocas e as formatações, mas a maioria continua comigo. Quinhentos e Oitenta e Nove gigabytes de informação (com partes compactadas). Nem perto do que muita gente tem, eu sei, mas é um resumo de metade da minha vida. Minha vida mesmo deve dar um tera e pouco.

Nestes dois últimos dias revi dezenas de milhares de imagens, sem exagero. Vi vídeos engraçados, vídeos filmados com o celular e vídeos que eu não via há anos. Tantas e tantas fotos da minha família, amigos, colegas de escola, gente desconhecida, parentes distante. Movi, renomeei, compactei, descompactei, transferi. Gigas e gigas.

A maior parte, a maior pasta, é a de putaria. Cento e setenta e oito giga (com partes compactadas). Nem perto do que muita gente tem, eu sei, mas eu nunca fiz questão de imagens em HD, vídeos em Blu-ray, gifs com muitos frames por segundo. Naquela época nada era medido em giga, mas em mega: 10 mega era coisa pra caramba - e imagina quem tratava a internet desde à época dos simples bytes! Os anos 90 viram a computação crescer como nunca, mas os anos 2000 viram esta desabrochar. Tive a sorte e o azar de conhecer ambas, mas só passei a salvar coisas na metade da primeira década do novo milênio. O ícone é um disquete, se serve de consolo.

Mas então a maior pasta é da de pornografia. Sempre gostei mais de fotos que de vídeos, mas estes estão lá também. Tem tanta, tanta coisa.

Na mesma pasta tenho imagens de mais de 10 mega e de menos de 50 kbytes. Vídeos em 240p e em Full HD. Milhares de gifs, de qualidades tão destoantes que alguém poderia achar que é alguma falha num codec qualquer.

Têm sido extremamente incrível rever tudo isso. Ver o que eu gostava há quinze anos atrás e o que gosto hoje: Em termos de peitos mesmo. Bundas, pirocas, bizarrices, estrias, condicionamento físico, amadorismo e profissionalismo, atuação, trilha sonora. E os cabelos! Meu deus, os cabelos! As roupas (apenas nos minutos iniciais, é claro), a moda, as gírias, os gemidos.

Tem coisas que, ao rever, lembrei imediatamente de quando salvei. Como salvei, quando, em que computador, de que site, se baixei compactado ou foto por foto. Lembro dos nomes, na aparência. Lembro de imagens individuais que salvei porque nem gostei do sexo mostrado, mas porque a iluminação da cena estava muito boa - acredite ou não, mas é verdade, e mais comum do que eu me orgulho de dizer. Do mesmo modo que lembro de vídeos inteiros que baixei porque vi um gif incrível antes (e, quase sempre, o gif se provou melhor que o vídeo completo).

Essa experiência toda, entre fotos pessoais, vídeos de propagandas censuradas, músicas que sofri para encontrar pelo Ares, meus projetos de blogs (com seus PDFs, banners, templates, posts salvos, imagens), documentários passados pelos meus professores, trabalhos antigos de escola, registros de conversas do MSN, materiais do curso de AutoCAD que eu não gostei de fazer, fotos dos meus antigos colegas de escola. Gente que entrou e saiu da minha vida, coisas que fiz, coisas que apenas registrei. Vi tantas fotos de mulheres gostosíssimas que posso dizer, até hoje, quando descobri que estas existiam e quanto foi difícil achar mais material sobre elas.

E elas, todas elas, junto de tantas outras pornografias e retratos individuais que vivi, já passaram. Tem gente alí que ainda vejo. Tem gente que nunca mais vou ver alí. Tem gente que vou ver por acaso. Tem gente que nem penso mais em querer comer. Tem gente que, hoje, sequer consideraria me masturbar como homenagem.

Mas naquela época, em cada época individual, foi incrível.

À bem da verdade, rever isso tudo me comprova que, na gigantesca maioria, tenho um bom gosto excelente. Uma gente mais fodível que a outra.

Estranho como, quando mais novos podemos achar alguém com quem de fato convivemos tão absolutamente perfeitas e, tempos depois, olhar para trás e poder dividi-las em duas categorias: gente que você sente saudades por não conhecer mais e quando lembra delas é com carinho e sem malícia alguma, e gente que, quando se lembra delas, permanecem neste buraco que é a luxúria. E às vezes é a mesma pessoa.

Olhar para lembranças e ver que tem gente com as quais você não faria absolutamente nada hoje, mas que, na época, faria tudo o possível. E ao contrário também.

Eu não estou velho. Claro, um dia de cada vez estou ficando mais velho, mas não estou velho ainda. Estou até menos idiota. Digo isso porque o sentimento aqui não é nostalgia. Não trocaria hoje por ontem algum.

No meio desses tantos arquivos que tenho tem gente que já morreu. Gente muito diferente entre si, inclusive.

Cada peito, cada bunda, cada pequeno detalhe que já me fez salvar um arquivo já morreu: Absolutamente ninguém em nenhuma pornografia que tenho existe mais. Caso não seja óbvia a metáfora, não, eu não curto exclusivamente pornografia com gente idosa.

É que cada um daqueles peitos já estão um pouquinho mais caídos. Podem estar maiores ou menores, com ou sem silicone, mais ou menos gostosos, mas aqueles que me fizeram salvar o que quer que fosse já não existem mais. Essa é a grande beleza do registro: Salvar apenas uma pequena porção que pouco depois será, e para todo sempre, apenas passado.

E tanta gente já passou. E nem sou velho ainda!

Não sou do tipo que quer morrer jovem para não envelhecer. Não sei quando vou morrer, mas uma das grandes perguntas da vida é quanta mais gente irá passar por você até o tal derradeiro momento?

Com esta limpeza, a mais profunda limpeza que já fiz nos meus arquivos, me comprometo a fazer uma coisa: Não salvar mais nada.

Claro, trabalhos de escola, materiais importantes, e-mails que é bom guardar - coisa necessária. Já tenho mais que o suficiente de músicas, filmes, fotos e pornografia. Me conheço bem o suficiente para saber que eu jamais verei tudo isso novamente, então não há motivo algum para criar mais, salvar mais. Já há um bom tempo desisti de tirar fotos, apesar de gostar bastante de fotografia (apenas como apreciador, nunca tive jeito para fotógrafo), e agora o mesmo vale pros conjuntos binários. Se eu salvar alguma coisa é porque eu preciso. Por necessidade prática. Sei que haverá exceções, mas apenas exceções, nada de gigas, pastas, álbuns, coletâneas.

2014 foi terrível; 2015 também. 2016 tem sido diferente. "O ano só começa depois do Carnaval" e meu Carnaval começou com uma reformatação não planejada e um mergulho em anos e anos de memórias esquecidas. Boas memórias: Fazem meu hoje, ocupam meu HD externo, geram um post melancólico. O primeiro do ano, nada menos.

Estava relendo algumas coisas, em decorrência do tal mergulho, outro modo de lembrar das coisas. Reli o único post de 2015: Post legal, me fez rir. Pra mim este blog hoje é uma mistura entre ser um dos meus tantos arquivos salvos e um modo de, vez ou outra, criar um novo arquivo para poder vê-lo no futuro e, quem sabe, fazer um post mais interessante. Tenho falhado miseravelmente, creio eu.

Depois de dois dias quase inteiros mexendo no computador (incrível: anos atrás eu passava horas e horas na frente do monitor, incansável, hoje é algo tão raro) estou chegando nas etapas finais da limpeza. Enquanto escrevo isto alterno para a pasta de putaria, realocando os arquivos com nomes muito grande para o Windows Explorer mover. Depois disso me faltará apenas arrumar a pasta dos arquivos mais recentes, a maioria de arquivos realmente necessários na minha vida atual.

À menos que eu mergulhe absolutamente fundo e veja arquivo por arquivo, em seus mínimos detalhes, devo terminar amanhã. Como eu não só sou preguiçoso como também levaria um tempo que eu não tenho, estes arquivos, estes vários e vários anos da minha vida, permanecerão o resto de suas existências inalterados. Salvos no HD externo, mas longe das minhas mãos, longe do meu computador e do meu alcance comum.

Quem sabe, daqui há mais tantos anos, eu não os veja de novo. Talvez eu chegue naquela fase de mexer nas velharias e encontre o HD. Talvez tenha que explicar para filhos, netos, sobrinhos, colegas, amigos quem era o cara ao meu lado, tocando violão num vídeo, ou que a garota de quatro na foto postou a tal foto ela mesma na internet, e que o primo descobriu que era ela e espalhou pra todo mundo.

Cada arquivo guarda uma pequena parte da minha vida que já foi, e pior ainda, que apenas eu sei. Porque se alguém, seja agora seja no futuro, abrir qualquer um desses arquivos, só vai ser uma pessoa tocando violão e uma pessoa nua, sem histórias, sem lembranças, comuns.

Não levo à sério promessas de ano novo; não prometi nada. Mas também é verdade que desde 31 de Dezembro de 2015 tenho mudado bastante coisas na minha vida.

Já há uns dois ou três anos tenho desconsiderado cada vez mais o passado, sem deixar de reconhecer sua importância, mas sem deixá-lo influenciar diretamente no futuro, e pessoalmente falando, até agora, esta limpeza é a maior coisa que fiz. Isto e parar de usar a saudação nazista quando vejo um careca.

Estou quase no fim. É meio triste tomar conhecimento de quanta gente está no passado (e se voltarem no futuro será apenas uma minoria), mas meu deus, como eu tenho espaço livre no computador agora! E está funcionando tão mais rápido!

Bati meu recorde pessoal de eufemismos e metáforas com este post.

É 1:02 da matina de segunda-feira de Carnaval (mantendo tradições do blog, vejam só) e eu finalmente terminei de correr a lista de arquivos de putaria e vou começar a editar os 137 arquivos cujos títulos são grandes demais... essa limpeza toda só fez meu computador sobreaquecer (e desligar por segurança) quatro vezes, meia dúzia de reinicializações no modo de segurança, umas gambiarras com os drivers de rede e várias horas da minha vida dedicadas à coisas que, num ponto ou outro, já foram a minha vida.

Talvez a coisa mais sábia à se dizer seja que ainda é muito cedo pra dizer se isso tudo valeu à pena, mas a verdade é que eu estou cansando, o computador está ligado desde às 10:40 da matina e que a Carla Bruni era muito gostosa quando mais jovem, mas ela está me atrapalhando agora.

Não sei quando este blog terá mais novidades, mas a gente ainda se vê, ainda não terminei com esta lembrança.

See ya!
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